“Não era para ser” – “Quando tem que ser acontece”

Existem conselhos bons e aqueles sem nenhum fundamento lógico, dizer para alguém “quando tem que ser acontece” é um desses casos.

Essa frase se apoia em duas falácias, de que há um plano secreto do universo o aguardando e que tudo tende a favorecer você. Os dois enganos giram em torno de uma única questão, não deixar ninguém entregue a uma frustração pessoal.

Exemplos práticos. O sujeito fez uma prova e não passou e alguém diz, “quando chegar a hora você passa“. Qual o critério usado para afirmar isso? A pessoa que diz isso não sabe o que está afirmando, mas acha que pressente algum plano divino para abençoar a outra. Se Deus existir, ninguém tem acesso a esses planos, logo pode ser que isso não esteja nos planos de Deus. Se Deus não existir, então não há plano nenhum, logo afirmar isso é dar uma esperança baseada em nada.

O que seria mais sábio dizer? Não faço ideia da dor que está passando, acalme-se, descanse, recomponha suas forças, repense se ainda quer passar nessa prova e se afirmativo volte a estudar. Coloque a pessoa em contato com sua vulnerabilidade e depois com sua força.

Outra situação. A garota é deixada pelo namorado e a amiga “consoladora” diz “não era pra ser”. Baseada em que ela diz isso? O que era pra ser, então? Só a felicidade conta na vida? Nenhum fora ou desilusão estão permitidos para alguém?

Para alguns parece muito difícil simplesmente apoiar sem usar frases feitas e sem sentido. Seria menos pretensioso falar “agora é hora de deixar seu coração desaguar quanto tempo for necessário”. Essas perdas são tristes, tome seu tempo e no momento adequado estarei por perto para que retome aquilo que deixou em suspenso”. Simples, afetivo e sem afagos vazios. Ninguém precisa levantar a peteca desmerecendo quem quer que seja.

Essa cultura que nutrimos de que todos devem ser poupados do sofrimento ou impedidos de sentir tristeza cria uma vergonha pela derrota que inibe que um coração sinta dor e fique em paz com ela. Não é preciso sair justificando suas perdas ou alisando o ego dos outros para que não se sinta mal. Tristezas pontuais e justificadas são bem-vindas. Talvez seja mais inteligente e corajoso encarar que o único plano disponível de verdade é aquele que poderá construir com suas mãos e apoio de pessoas queridas aqui e agora, sem receio de quedas.

Sobre Frederico Mattos

Sonhador nato, psicólogo provocador, autor do livro "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas medita, cultiva um jardim, lava pratos, ama Juliana e escreve no blog Sobre a vida [www.sobreavida.com.br]. No twitter é @fredmattos.

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