Só um relógio pode fazer de você um homem de verdade

Há inúmeras pesquisas, teorias e simples opiniões cretinas – como esta – sobre o momento que marca a passagem da infância para a idade adulta. Em bom português,o momento em que o sujeito vira um homem de verdade. Os judeus têm o Bar Mitzva, e os machões dizem que, ao perder a virgindade (da maneira, digamos, ortodoxa), o menino vira um homem. E há quem fale em coisas como o primeiro emprego, a entrada na faculdade, comprar os clássicos que, durante anos, você vai dizer que leu, voltar a comprar brinquedos, enfim, são muitas as teorias sobre a entrada na idade adulta. Até hoje eu nunca havia parado para pensar nisso. Até hoje.

Hoje foi dia de garantir a vaga no céu: passei o dia com a namorada no Shopping. E loja vai, loja vem, resolvi comprar um relógio. Eu não costumo usar relógio, nem sei por quê. Não usava quando criança e até hoje não o fazia. Acabou que eu comprei um. E, na hora de pagar o estacionamento do Shopping, ao ver meu pulso com o relógio estendido com a nota de cinco reais para a moça, foi que tive o estalo: não era o braço de um rapaz, de um jovem. Era o braço de um homem, sério, adulto, de relógio! E me atentei que este é o momento em que um sujeito vira um homem de verdade: quando ele passa a usar relógio. Ou, se você é uma pessoa normal e já usava relógio antes, o momento que o sujeito compra um relógio de ponteiros. E se você já usa relógio de ponteiro, você nunca vai ser um homem, só pra deixar de ser palhaço e parar de atrapalhar o texto dos outros.

Qualquer pessoa pode comprovar a minha teoria. Se você vai a uma reunião de trabalho, e lá está um jovem, vinte e poucos anos, bermudão xadrez e brincos nas orelhas. O que você vai achar? Que deve ser filho do chefe, claro. Mas e se esse mesmo rapaz, com a mesma bermuda e os mesmos brincos, está usando um relógio. De ponteiros. Aí a coisa já muda de figura. Ele pode ser algum gênio excêntrico ou um criativo que, dado o alto nível das idéias que ele sempre dá, possui uma licença tácita para se vestir do jeito que bem entender, enquanto você, sem relógio, está suando até agora por causa da viagem de metrô às sete da manhã dentro desse terno preto.

Eu fui para o Shopping um rapaz de vinte e poucos anos, com óculos estilo máscara de garotão e ouvindo música. Sem relógio. E voltei um sujeito de quase trinta, com óculos estilo aviador e ouvindo o boletim da bolsa de valores na rádio CBN. Com relógio. Meu braço direito esticado segurando o volante com aquele relógio preto era, definitivamente, o braço de um homem sério e adulto. E sim, eu uso relógio no braço direito. Relógio no braço direito não é coisa pra qualquer um. Só os audaciosos, tenazes e brilhantes o usam dessa maneira. As melhores mulheres estão com homens que usam relógio no braço direito. Einsten, Da Vinci, Átila o Huno, Jonh Lennon e Napoleão estão entre os adeptos desse uso. Portanto, além de virarmos homens ao usar relógio, viramos Grandes homens.

Enfim, eu falava do relógio. Vocês podem reparar. Homens com relógio são levados mais a sério. Você pode ter um notebook debaixo do braço, a chave de um Porsche no bolso ou uma mensagem de texto no celular da Luana Piovanni dizendo “vem logo pra casa, amor, senão vou começar sem você e deixar você chupando… o dedo. Beijoca!”. Nada disso lhe garantirá olhares respeitosos das outras pessoas no recinto. Mas um relógio, um simples e comum relógio de ponteiros, lhe faria subir ao patamar de sujeito sério e respeitado. E um relógio pode ser a diferença entre um sim e um não de uma mulher. Entre o “você começa na segunda” e o “gostamos muito de você mas a vaga era pra outro perfil”. Ou até mesmo entre o “quem é esse babaca de brinco que você tá namorando, Giselda?”, e um “Giselda, oferece um copo do meu Whisky pro garoto enquanto a gente se conhece melhor”. Pense nisso e compre um relógio. Ou troque esse seu que mais parece um comunicador Power Ranger por um relógio sério. Acredite, a sua vida vai mudar.

Sobre Léo Luz

Leonardo Luz é escritor e roteirista, e não sabe fazer mais nada da vida, a não ser jogar poker e fazer pipoca de microondas.

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